| Denúncia: Autorcracia em marcha
Por Rinaldo Barros*
Silenciados todos os clarins de Momo, é hora de atentar
para a importância histórica de 2010.
A conversa de hoje é, em defesa da Democracia duramente
conquistada, uma espécie de alerta sobre um fenômeno
político novíssimo ainda em gestação aqui no patropi, mas
com raízes já fincadas em alguns países da América Latina: o
surgimento de uma nova Autocracia. Vejamos.
O venezuelano Hugo Chávez é um tipo rudimentar. O brasileiro
Luiz Inácio, embora sintonizado com os “objetivos
estratégicos” da revolução bolivariana, não o é. Chávez diz
não entender por que um presidente "que tem 80% de
aprovação" não pode disputar um terceiro mandato
consecutivo; como se as regras da ordem democrática devessem
variar conforme o desempenho dos governantes e seus índices
de popularidade.
Lula, que recusou a possibilidade do terceiro mandado;
acredita que pode chegar aonde quer por outros meios, mais
sofisticados do que é capaz de conceber a mentalidade tosca
do sargentão de Caracas.
A meu ver, trata-se de um processo de criação de um novo e
duradouro bloco de controle da máquina estatal, capaz de se
manter por algumas décadas, se vencer as eleições
presidenciais deste ano. Aliás, este sempre foi o projeto do
PT, formulado por Zé Dirceu: conquistar o poder e governar
para transformar, autocraticamente, o Brasil numa potência.
O “mensalão” o interrompeu.
Projeto esse retomado agora com o documento "A Grande
Transformação", a ser aprovado no 4º. Congresso Nacional do
PT, baseado no livro de Karl Polanyi “A Grande
Transformação: as origens de nossa época”, Editora Campus.
Leitura imperdível.
Trata-se de um processo que vem minando o espírito da
democracia constitucional, com a desmoralização das
instituições, combinada com o incessante culto à
personalidade do Lula, a um só tempo autoritário e popular.
Governa através de medidas provisórias, massacra os
aposentados e promove o endividamento das famílias, sob os
aplausos da maioria da população.
Lula não representa mais os trabalhadores (como antes),
pertence ao sistema; tem fortalecido o capital e as
oligarquias. Dilma nunca representou os trabalhadores, e é
uma ameaça à ordem vigente.
Perceba o caro leitor que, no interior do governo, Lula
aninha uma burocracia sindical que se apropria
sistematicamente do mando dos gigantescos fundos de pensão
das estatais, os quais, por sua vez, têm assento nos
conselhos das mais poderosas empresas brasileiras,
administrando muitos bilhões de dólares.
Por sua vez, no trato com o Congresso, Lula faz os pactos
que lhe convier com tantos “Judas” quantos estiverem
dispostos a servi-lo para, em troca, se servirem dos
despojos da administração federal, enquanto a oposição
balbucia “objeções” que apenas revelam a medida de sua
dificuldade de comunicação (?).
São raros os políticos oposicionistas que não se deixam
apequenar pelas pesquisas de opinião que mantêm a
popularidade de Lula nas nuvens, sustentada pelo aparato de
comunicação do Planalto, em forma de culto à personalidade.
E, até hoje, não se cumpriu o desenvolvimento
econômico-social prometido.
O cenário atual é composto por partidos fracos, congresso
desmoralizado, sindicalistas que viraram banqueiros, fundos
de pensão convergindo com os interesses do governo e para
eles atraindo sócios privados privilegiados. Ressalte-se
que, no Brasil, os fundos de pensão não são apenas
acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas –
mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos
conselhos de grandes empresas. Como publicou o Estadão, “uma
escancarada dissonância entre o discurso e a prática
política”.
Devagarzinho, o vírus da Autocracia vai minando o espírito
da Democracia constitucional; a qual pressupõe regras,
informação, participação, transparência, representação,
deliberação consciente e controle social. Sem que a maioria
perceba, estamos regressando a formas políticas dos anos de
chumbo, quando os “projetos de impacto” animavam as
empreiteiras, sob o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
No Governo Lula, temos a Transnordestina; o Trem-bala; a
Norte-Sul; a transposição do rio São Francisco; a Refinaria
Abreu e Lima (em parceria com a Venezuela); Minha casa,
minha vida; Biodiesel; Luz para Todos; Etanol para o mundo;
Pré-sal para todos; afora as obras do PAC. É o “Brasil
potência”.
Até mesmo a possibilidade de construção da bomba atômica
como argumento para cheguemos ao Conselho de Segurança da
ONU – ao arrepio da Constituição – vez por outra é
defendida, sem que o PT, o Parlamento, eu ou você, caro
leitor, seja consultado sobre qual deva ser o melhor rumo
para o Brasil.
Até porque, bolivarianamente, Lula já declarou que em
matéria de “objetivos estratégicos” (a compra dos caças, a
candidatura Dilma) ele decide sozinho; tal qual faria Luís
XIV, Ahmadinejad, Chávez ou Stalin.
Cá no meu canto, fico assuntando: em outubro (considerando
que a ex-guerrilheira Dilma não é Lula), os brasileiros
assumirão a defesa das liberdades democráticas (com
alternância do poder); ou legitimarão a Autocracia sindical,
com sua candidata fabricada e suas práticas autoritárias?
Fico com Ana Carolina: “não dá pra mudar mais o começo dessa
história, mas dá pra mudar o final”.
*Rinaldo Barros é professor da Universidade
do Estado do Rio Grande do Norte, desde 1988. Está
participando como convidado do Programa de Pós-doutorado da
Unidad de Estudios en Desarrollo da Universidad Autónoma de
Zacatecas - UAZ, no México, com o projeto Políticas Públicas
para a Ciência e Tecnologia: as nanotecnologias no Brasil.
Atualmente, ocupa a Diretoria Científica da FAPERN –
Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio Grande do Norte, onde
busca contribuir para que a disseminação do conhecimento
científico e a prática da pesquisa se tornem mecanismos de
desenvolvimento do Rio Grande do Norte. |