A máfia dos convênios médicos
Por André Augusto Passari*
Imagine, leitor, você diante de um médico que nem olha para
a sua cara, pergunta o que você sente enquanto vai anotando
no prontuário, depois prescreve a receita com uma letra
ilegível e já acabou a consulta em menos de dez minutos.
Você, fragilizado pela sua doença, ansioso, querendo saber
mais sobre os riscos e chances de cura, sai do consultório
sentindo-se maltratado e sem confiança de tomar os remédios
que aquele médico mal educado lhe receitou.
Esta é uma cena muito comum tanto no serviço de saúde
pública quanto nos consultórios particulares. Porém, nem
vamos nos ater a questão do serviço público, mas sim ao seu
médico do convênio que lhe tratou tão mal. Ora, você paga o
convênio, que é caro, e o médico é pago pelo convênio!
Então você passa a desconfiar dos médicos, a achá-los
arrogantes e insensíveis, só interessados no dinheiro que
vão ganhar. Alguns até pensam em processar os médicos.
Estes, por sua vez, passam a desconfiar dos pacientes, a
achar que eles não respeitam o seu papel de médico, que os
pacientes são exigentes, um estorvo, e possíveis inimigos
num processo judicial. A consulta médica, que deveria
acontecer num ambiente de conforto, confiança mútua e
sensibilidade, se transforma num cenário esquizo-paranóide
de teorias de conspiração.
Pois bem, lembrando que os médicos também são pacientes e
utilizam os serviços dos convênios, e que realmente há
médicos mal educados, arrogantes e insensíveis, vamos tentar
entender por que a relação dos bons médicos com seus
pacientes tem se deteriorado tanto.
Os médicos, hoje em dia, se quiserem ter consultório, são
reféns dos convênios, pois poucas pessoas pagam consultas
particulares, já que pagam convênios. Os médicos têm gastos
com a infra-estrutura dos consultórios, como aluguel,
secretária, telefone, instrumentos, receituários, sala de
espera, cadeiras, café, revistas, etc. E pagam impostos
pelos serviços realizados.
Acontece que a maioria das pessoas não sabem o quanto os
convênios pagam mal os médicos. Há até pessoas que ficam com
a consciência pesada, pois acham que estão dando prejuízo
para o convênio, de tantas consultas que fazem. Pura
ingenuidade, pois os donos dos convênios estão rachando de
ganhar dinheiro.
Os convênios pagam ao médico em média cerca de vinte a
trinta reais por consulta (e desconta o imposto), com
direito a retorno, do qual o médico não é remunerado,
ganhando portanto, se o paciente for ao retorno, cerca de
dez a vinte reais por consulta.
Por isso os médicos têm que atender rápido, correndo, para
fazer volume, senão não pagam nem os gastos do consultório.
Isso é tocar serviço, piora muito a qualidade da consulta. E
não dá nenhuma satisfação para médico, pelo contrário, só
desgosto pela profissão. O pior é que os donos dos convênios
em geral são médicos. É médico comendo médico.
Os pacientes e os médicos são os prejudicados. Só os donos
dos convênios se beneficiam.
*André Augusto Passari - Nascido em 1979, é
Médico Psiquiatra, colunista de jornais, autor de
"Fragmentos do Tempo" (Artepaubrasil) |
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