Quaresma
Por D. Manuel Madureira*
A participação nos sacramentos pascais
A Liturgia da Quaresma, toda ela orientada para o mistério da Páscoa, está
entretecida de sinais sacramentais, e, particularmente, voltada para os
sacramentos pascais. Não é em vão que S. Paulo nos recorda o mistério pascal no
qual fomos sepultados pelo Baptismo (Cf. Rom. 6, 3-6). Não é sem motivo que a
Eucaristia é o sacramento e o sacrifício com o qual Jesus inaugurou a Páscoa
nova. Não é porventura a Eucaristia o memorial da morte e ressurreição do
Senhor?
É assim que a Igreja entende, desde os primeiros tempos. Por isso instituiu a
Quaresma como tempo forte de vida catecumenal, em ordem ao Baptismo a celebrar
na Vigília pascal; por isso manda os seus filhos comungarem eucaristicamente
pela Páscoa da Ressurreição; por isso concedia aos penitentes a reconciliação
pascal, em 5.ª feira santa, a fim de poderem participar em plenitude na
Eucaristia da Vigília. Poder-se-ia dizer, em síntese, que a Quaresma é o grande
tempo de preparação para os sacramentos da iniciação cristã, bem característicos
do espírito da Páscoa. Com efeito é assim que a Igreja o entende, ao ordenar que
os catecúmenos sejam iniciados sacramentalmente nessa Vigília magna da Páscoa,
depois da preparação do tempo quaresmal; é ainda assim que a Igreja o entende ao
mandar que os fiéis renovem as promessas do Baptismo e participem na Eucaristia
pascal; é ainda esse princípio que leva a Igreja a orientar os fiéis a
receberem o sacramento da Confirmação no tempo pascal, de preferência, é
finalmente, por isso, que a Igreja insiste na celebração da Reconciliação
sacramental no tempo da Quaresma, a fim de que a graça do Baptismo seja
renovada, e o cristão participe, de modo íntimo, no mistério da Redenção,
através da comunhão eucarística.
Há, portanto, na espiritualidade e na acção pastoral da Quaresma toda uma
exploração a fazer dos valores sacramentais do Baptismo, do seu complemento que
é a Confirmação, da Eucaristia e do sacramento da Penitência, como condição
para esta. Não pode haver pastoral de Quaresma sem pastoral sacramental, a qual,
por sua vez, supõe e exige a pastoral da Palavra que abre para a fé. Não há
espiritualidade da Quaresma, sem uma profunda vivência do Baptismo e da
Eucaristia, e, como é óbvio, do sacramento da Penitência. A Quaresma, como
tempo privilegiado de salvação, a convidar-nos todos os anos à conversão, há-de
levar os cristãos a assumirem, conscientemente, a sua iniciação cristã,
renovando-a e revivendo-a, sobretudo na Eucaristia pascal vivida em plenitude.
† D. Manuel Madureira, Bispo emérito do Algarve, Pastoral e
Espiritualidade da Quaresma, X Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica.*