Imbecilidade & negligência
Por Boris Feldman - Estado de Minas
A partir da premissa de que acidente só acontece com os outros, o motorista é
um imbecil e o governo, negligente.
Quando vejo motorista carregando uma criança no colo, entre ele e o volante,
para "brincar" de dirigir, dá vontade de parar o imbecil e dar voz de prisão.
Pois a inocente brincadeira não tem nada de brincadeira nem de inocente.
"Mas é devagarinho, só aqui perto de casa, não vai acontecer nada", refutam os
imbecis. Os mesmos, aliás, que deixam as crianças se aboletarem no compartimento
de bagagem da perua ou do hatch. Elas vão felizes ali, sem imaginar que, caso um
carro bata na traseira, os engenheiros projetaram aquele compartimento para não
resistir ao impacto. Ele encolhe como uma sanfona, protegendo a parte central e
mais bem estruturada da carroceria, destinada aos passageiros.
A partir da premissa de que acidente "só acontece com os outros", são esses
mesmos motoristas que, ao comprar o carro zero-quilômetro, jamais encomendam
freios ABS ou airbag, mas insistem no CD Player, no couro, ar-condicionado, e
direção hidráulica. Os vendedores nas concessionárias procuram dissuadir o
cliente que pede equipamentos de segurança, alegando que será uma encomenda
especial e que o carro só será entregue dentro de dois ou três meses. Lógico:
estão muito mais preocupados em faturar sua comissão do que com a segurança.
Cinto
Li no jornal algumas notícias de graves acidentes nas estradas, no retorno das
festas de fim de ano, que, como sempre, resultam em dezenas de feridos e mortos.
Duas delas me chamaram a atenção, pois os carros capotaram e morreram uma
criança e um adolescente, que foram cuspidos do banco traseiro. Se foram
ejetados do carro, é porque não usavam o cinto de segurança. Como, aliás, mais
de 90% dos passageiros que viajam no banco traseiro. Para que o cinto, se
acidente só acontece com os outros?
Negligência
O governo é ainda mais irresponsável, pois não move uma palha para exigir mais
segurança nos automóveis. Mas finge com perfeição. Dois exemplos para que
ninguém tenha dúvida da negligência e indiferença do governo em relação ao tema:
1 - O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) regulamentou, há alguns anos, que
criança tem que ser levada no banco traseiro. Mas não resistiu ao poderoso lobby
das montadoras: se for picape, que só tem banco dianteiro, a regra não vale. Nas
picapes, as crianças podem correr todos os riscos de integridade física!
2 - Outra exigência decidida pelo Contran, ajoelhado diante das montadoras, é o
apoio de cabeça nas laterais do banco traseiro. Mas se "esqueceu" do apoio
central. Ou seja, se o prezado vai no meio do banco, dane-se sua coluna cervical
no caso de uma batida traseira...