PIZZA TAMBÉM SAMBA
Por Vlad Suato
Não sei que lá picture.
Depois das minhas cervejinhas, no meio daquela barulheira, demorou pra entender
a mocinha, não sei de onde, querendo tirar uma foto minha. Talvez ela não
tivesse percebido que a fantasia era de gafanhoto...
Com sorriso para todos os lados, decidi gastar meu inglês, arrogantemente:
- Where are you from, Baby?
- Israel.
De repente, ao caminhar pelas marginais da Sapucaí, atrás das arquibancadas,
ouvi uma gritaria. Seria de espanto com a minha borda de catupiry à mostra?
Pela foto no site da escola, eu entendi que a barriguinha ficaria escondida pela
verde caracterização do gafanhoto, mas na hora do “vamos ver” perguntei:
- Esta é a calça e cadê a camisa?
Em coro, os algozes responderam que não haveria camisa. Estava perdido. Com meu
corpinho branco-escritório, com a borda de caturpiry insistindo em circundar
minha cinturinha, teria de entrar na avenida do samba entre aquela gente
bronzeada que não perde a hora de mostrar seu valor.
Não, os gritos, ainda bem, não eram de espanto. Na minha frente seguiam estrelas
globais, com seus seguranças... Não vi direito quem...
- Picture?
Outra vez?
Eu virava, botava as asas do gafanhoto pra frente, segurava a respiração, tudo
pra disfarçar a amada borda... Em vão...
Usei de novo meu english:
- Where are you from?
- Argentina.
Por que será que a pessoa me abordou em inglês?
A fantasia tinha nada menos que treze partes entre joelheiras, caneleiras,
cotoveleiras, ombreiras, costeiro, capacete... Só não tinha camisa!
Uma amiga foi buscar a fantasia pra mim e resolveu achar que a calça, do meu
número, QUE EU HAVIA RESERVADO, não caberia em mim. Sem conseguir falar comigo
pelo celular, deu a sentença: ele precisa de GG. Eu uso calça número 42, daí já
dá pra imaginar o que rolou, ou melhor, o que quase caiu na passarela. Amarra
que amarra e estou eu quase de saia. Por pouco, não me candidatei à ala das
baianas.
Falando em ala, quem disse que eu encontrava a nuvem dos gafanhotos? Procura
daqui, procura dali, nada de gafanhoto. Na concentração, parei junto a um pobre
gafanhoto, desprezado como eu.
Aos poucos, aparecia um e outro e nos juntamos na calçada, até que a escola
começou a entrar na Avenida e abriu-se um buraco pra gente se enfiar.
Meus amigos sumiram. Uma subtraiu-se às vistas alheias, como se fosse possível,
rumando ao centro da ala, mas eu sei o motivo disso: ela não sabia o
samba-enredo. Outro se entregou às vistas alheias, sentia-se o rei dos
gafanhotos e foi pra perto do público exibir-se...
Era a penúltima ala, atrás de um enorme carro alegórico. Sambava feito um
carioca, ou quase, quando percebi uma amontoação dos frágeis gafanhotos.
Os insetos começaram a sambar pra trás, tipo as passistas também de escritório.
Eu não sabia se segurava a calça ou engatava a marcha ré também. Olhei pra cima
e percebi que aquele baita caminhão estava voltando. Entendi que era um momento
tenso, algo errado no reino, vamos cantar e distrair a galera da arquibancada.
Não adiantava. Depois de uns dois ou três trancos, o caminhão seguiu e levantou
uma fumaceira danada. E os verdinhos esbaldavam-se com aquele efeito especial...
Feito Boi Garantido (um dia ainda vou pra lá), minha pele foi se avermelhando,
por conta tanto das ombreiras quanto das cotoveleiras e, principalmente, daquele
costeiro que furava sem dó as minhas costas.
Acabou. Posso parar de sorrir. Posso desapertar minha cabeça. Posso tirar a
calça...
- Picutre?
Eu mereço.
- Anda logo menina que a coisa tá feia.
Lá fui eu de novo com minha curiosidade.
- Where are you from?
- Israel.
- Ãh?
- Israel.
Não é possível.
Assim e assado, mas tudo valeu a pena, pois é festa, é carnaval, é o Rio e é o
meu Brasil, com tudo de bom e de ruim.
É minha gente... E como eu gosto d’ocês!
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http://pontesdisfarcadas.zip.net