BANANÊ

Por Vlad Suato

Estávamos na primavera do último ano, quando ouvi pela primeira vez:
- Quero ir de táxi ao balé... Não sou palhaça de ir de salto caminhando pelas ruas geladas de Paris!
E o dia chegou. Em Paris, nas ruas geladas:
- Gente, não é preciso andar de táxi em Paris, o transporte público é de qualidade e, além do mais, estamos ao lado de uma estação de metrô.
Depois da negociação, o amigo-guia-intérprete convenceu a amiga-japa-salto a ir caminhando até a estação de metrô para chegarmos à famosa Ópera Garnier, uma casa de ópera em Paris.
Trinta e um de dezembro de 2007. Lá estava eu no meio daquele povo embecado, eu também embecado, uai, e emocionado com a beleza da arte posta à prova.
A bailarina, ao final, teve de voltar não menos que quatro vezes para receber os aplausos do público embargado pela emoção trazida sobre sapatilhas...
Por ora, poucos incidentes, a não ser a amiga-da-amiga que, desavisada, quase deixou o teatro ao terminar o primeiro ato, tendo a certeza do fim já apresentado:
- Foi lindo, não foi?
- Ei, maluca, ainda não acabou...
Mal sabia eu, os problemas apenas começavam, a magia e a beleza parecem deixadas na escada do teatro, com o banho frio das atrapalhadas.
- Agora vamos pegar o táxi até a Champs-Élysées, de lá poderemos ver os fogos? – disse a amiga-japa-salto.
- Gente, não é preciso andar de táxi em Paris, o transporte público é de qualidade e, além do mais, estamos ao lado de uma estação de metrô. – repetia o amigo-guia-intérprete.
Depois da negociação, o amigo-guia-intérprete convenceu a amiga-japa-salto a ir caminhando até a estação de metrô.
Muitos caminhos se entrelaçavam até se avistar a plataforma da linha correta do transporte público de qualidade.
Uma grande quantidade de pessoas felizes e tocadas pela alegria assustadora da redenção que atinge as almas no último dia do ano aparecia. Faltavam poucos minutos pra se fazer tudo que não estaria nas promessas e esperanças do ano novo limpo, tal qual o paraíso, à espera de arrependidos. Havia tempo de pecar, não menos que uma hora, mas havia tempo...
Multidões se amontoavam na estação quando se observou que o trem estava parado. A impressão é que havia partido e abruptamente interrompido seu trajeto. A explicação logo apareceu pelas vozes de policiais que deixavam os vagões embrenhados na escuridão do túnel.
- Houve incidente com um passageiro, mas logo o problema será solucionado.
O amigo-guia-intérprete resolveu esperar.
Os amigos-interpretados-estupefatos, inertes e aterrorizados com a idéia de que poderia se tratar de uma ameaça bombástica, esperavam a ordem para dispersar.
Dos corredores que levavam àquela plataforma, dezenas de pessoas chegavam e se amontoavam à espera do metrô que naquela noite tinha passagem grátis.
Finalmente, muitos policiais deixaram os vagões com arma em punho e determinaram que a estação fosse esvaziada. Com a ordem dada, enfileirávamos nas escadarias.
Fora, livres, ouve-se.
- Vamos pegar um táxi?
- Estamos em cinco, é muito difícil o táxi e a Champs-Élysées está interditada.
Depois da negociação, o amigo-guia-intérprete convenceu a amiga-japa-salto a ir caminhando. Os demais acompanhavam.
Cada vez a passos mais curtos, o tempo passava mais rápido. Não havia quem fizesse a japinha acelerar a caminhada com aquele monstruoso salto que realçava a beca necessária ao balé. O guia, sem poder deixar os pobres francesamente analfabetos, esgoelava-se a convencer que pouco faltava ...
- Só mais uns minutinhos...
Resolveu-se ir até o Champ de Mars, de onde se veriam perfeitamente os fogos. Cem metros pareciam quilômetros para aqueles saltos.
Meia-noite em ponto.
Chegamos.
Entregamo-nos a um banco de ponto de táxi e dali vimos fogos, os quais nada impressionam quem já os viu em Copacabana.
Ali fizemos a festa, como todo bom brasileiro. Comecei a ouvir um tal de “bananê” pra todo lado. Que seria isso? Entrei na onda:
- Bananê pra você também... E pra você também... E também pra você...
Meia-noite e meia, não se viam muitos festeiros.
Disse a amiga-japa-salto:
- Agora vamos pegar o táxi até o hotel.
Rendeu-se o amigo-guia-intérprete, depois da odisséia anterior.
No entanto, cadê o táxi?
Ficamos de uma até as quatro horas da madrugada tentando pegar táxi pelas ruas de Paris.
Por lá também existe o SAMU (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) como aqui em Campinas, deve significar outra coisa, mas na mesma linha. Tem ainda uma de suas derivações, o SAMU SOCIAL. Pensamos em forjar um enlouquecimento pelas ruas, para sermos recolhidos pela Assistência Social, mas melhor não mexer com isso.
Ligamos para o hotel e pedimos para encaminharem um táxi até nós. O atendente foi taxativo:
- O táxi tem de pegar o passageiro no hotel, não pega passageiro na rua.
Ficamos um tempão tentando o atendimento na central de táxi, por telefone, em vão...
O frio apertava.
O deserto se apresentava nas ruas.
Metrô: única solução, se não explodíssemos poderíamos chegar.
Meio morto meio vivo, cheguei ao hotel e capotei.
Pra vocês, feliz 2008, ou melhor, “bananê”, ou melhor, bonne année!

Leia outras crônicas no blog do Vlad Suato:  http://pontesdisfarcadas.zip.net