O JOVEM POLICIAL
Por Lya Luft*
"Se fossemos um país mais educado, menos policiais
morreriam por nós, menos cidadãos seriam assaltados e
mortos, menos jovens se tornariam malfeitores, menos força
teriam os traficantes"
"Eu estava abastecendo meu carro e do meu lado estavam duas
viaturas da polícia militar. Dois policiais falavam com
alguém do posto e um terceiro, bem junto da minha janela, de
costas para mim, portava arma grande, que na minha
ignorância acho que poderia ser um fuzil ou uma
metralhadora. Estava ali, sozinho, e comecei a observá-lo
sem que me notasse.
Tenso, alerta, consciente de sua missão, olhava para os
lados empunhando sua arma com o cano para baixo. Seu rosto
era jovem, tão jovem que me comovi. Podia ser meu filho.
Mais: podia ser meu neto. Estava tão concentrado no seu
dever, tão alerta na sua missão, que fiquei imaginando se,
ou quando, ele poderia levar um tiro de algum bandido.
Poderia ficar lesado gravemente. Poderia morrer. Por mim,
por você, por um de nós, em qualquer parte do Brasil, não
importa que nome se dê à sua corporação nem se é Estadual ou
Federal. Esses jovens se expõem por nós. Morrem por nós.
Tentam, num país tão confuso, proteger o cidadão. A GENTE
REALMENTE PENSA NISSO ? UMA VEZ AO DIA, UMA VEZ POR SEMANA,
UMA VEZ AO MÊS ?
Tentei imaginar também como eu me sentiria se um de meus
netos tivesse essa profissão. Que suspiro de alívio a cada
noite, ou a cada manhã, sabendo que ele estava em casa. Que
angústia sempre que noticiasse uma perseguição, um tiroteio.
QUANTO GANHA PARA SE EXPOR ASSIM UM RAPAZ DESSES ? Esse
tinha na mão esquerda uma fina aliança. Podia ter filhos,
com certeza muito pequenos, dada sua pouca idade. que vida a
de milhares de famílias, em troca, penso eu, de uma
compensação financeira diminuta.
Impressionada com sua seriedade, com a realidade concreta
daquela arma enorme, e com quanto de repente me senti em
dívida com aquele quase menino, teimei em adivinhar quanto
ganharia ele ? Tanto quanto uma boa empregada doméstica, que
não arrisca a vida embora seja importantíssima numa casa bem
organizada onde a valorizam ? Tanto quanto uma professora de
escola elementar, que vende quinquilharias ou doces feitos
em casa para colegas no intervalo das aulas, a fim de se
sustentar ?
Tanque cheio, sai rodando, pensativa: a educação e a
segurança são os primeiros eixos da vida de um país digno.
Elas e outros tantos fatores. Mas eu, naquele dia, quis
pensar em educação e segurança. Com elas gastam-se
quilômetros de papel e uma eternidade em falação. Se
fôssemos em país mais educado, menos policiais morreriam por
nós, com certeza menos cidadãos seriam assaltados,
violentados e mortos, menos jovens de classe média alta se
matariam nas estradas ou venderiam drogas mortais a seus
colegas nas escolas ou nos bares.
O Problema, o dilema, a tragédia é saber por onde começar:
EDUCAÇÃO COMEÇA EM CASA. Mas, diz um psicólogo amigo meu,os
meninos (e meninas)problemáticos (aqui não falo dos
saudáveis, que constroem uma vida) em geral não têm pai ou
mãe em casa, e têm poucos modelos bons a seguir. Nas
escolas, professores e professoras são mal pagos,
desestimulados, sobrecarregados e desanimados (não todos,
portanto não me xinguem por isso). Nesse caso, a educação
deveria começar pelo alto: pelas autoridades, pelos
políticos, pelos líderes. Não posso dizer que o Brasil está
sendo brindado com uma maioria de políticos modelares, de
líderes positivos, de autoridades de atitude impecável.
Então vivemos um dilema triste: começar por baixo, pela
faixa etária menor, pela educação em casa e nos primeiros
anos na escola, ou começar a reformar a mentalidade dos
altos escalões, nos quais alguns líderes se destacam pela
autoridade moral e elevada postura, mas a maioria, sinto
muito, está longe disso?
Não creio que haja resposta. Eu não a tenho. quem a tiver
sugira que aos governos ou aos pais, ou aos colégios. De
momento, parece-me que estamos apenas despertando para essa
questão crucial, sem a qual nada se fará de importante neste
nosso país das utopias.*Escritora da
revista VEJA, enviado por Valmir Dionizio
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