Nós é que não sabemos votar
Por Hamilton Serpa
É muito fácil fazer-se uma cara de inteligente e dizer: “O
povo não sabe votar”
É muito fácil citar o ‘lugar comum’ como se, simplesmente no
fato de repetirmos um chavão, já nos tornamos inteligentes.
Como não sabemos votar?
Nós não sabemos é cobrar uma mudança no nosso sistema
político.
Que sistema é esse que os caras mesmo pegos com mão na
botija continuam se candidatando? Como o exemplo deste
último de Brasília?
Quem vê o cara parece um anjo e qual político não parece um
anjo. Todos parecem uma sumidade de coerência e retidão.
Ai são pegos em canastrice como esse e ainda possuem a cara
de pau de virem à mídia e tentarem dar uma imagem correta
sobre os fatos ocorridos.
E o pior é que provavelmente não vai acontecer nada, ou no
máximo, como ele já fez uma vez, na contagem dos votos do
senado, chorando, dizendo-se arrependido de ter mentido e aí
abdica do cargo e na próxima eleição lá está novamente se
candidatando de novo.
Se os eleitores de Brasília votarem nele de novo eles é que
são culpados?
Mas que opções muitas vezes possuem o povo de um lugar, já
que o voto é obrigatório?
E todos aqueles que receberam dinheiro do esquema dele
também foi um erro do povo?
Só é inelegível quando for condenado. Mas quando alguém que
tem dinheiro neste pais é condenado?
O réu confesso, diretor do Estadão, que matou a namorada há
mais de dez anos, já está preso por acaso?
Mas o crime de um plitico é socialmente muito pior, pois o
roubo é contra todos os cidadãos.
Este crime não deveria ter perdão.
Mas aqueles que perderam as eleições seriam melhores? Quem
em sã consciência pode garantir?
Eu sou povo e digo: “Não somos nós que não sabemos votar”.
O sistema eleitoral é que foi feito por raposas e que
deixaram um monte de brechas por onde estes quadrilheiros
com ares de homens públicos estão sempre se escapando.
O que deveria ser feito não depende de nós que é a mudança
das regras do jogo.
Este governador de Brasilia, assim como outros já pegos
anteriormente, mentiu descaradamente na tribuna e já deveria
é ter sido varrido da vida pública.
Ele é só um exemplo, pois quantos já não tivemos? Inclusive
a nível federal com os mensalões; o caso das propinas
institucionais de Rondonia. Não sabemos no que deu. Com
certeza ainda estão lá, só que mais discretos; o caso
recente da governadora do Rio Grande do Sul. Será que foi
investigado a fundo? O caso do Sarney e os do passado da sua
filha. O caso do Jader Barbalho e tantos e tantos e tantos.
E o povo é que não sabe votar?
E onde está a nossa massa intelectual, a OAB, a Federação
médica, o conselho de economistas, os dos engenheiros, os
dos contabilistas, e todas as entidades representativas dos
que não são considerados “povo”, pois quem não sabe votar
“são os outros”, claro, onde estão todas estas entidades
representativas organizadas para encostarem na parede todos
estes ‘eleitos pelo povo’ e provocarem ou forçarem uma
mudança?
Eles também não são prejudicados pelos eleitos "do povo"?
Os professores universitários, os representantes das mais
diversas atividades econômicas, os intelectuais da diversas
áreas culturais As associações estudantis. O que houve com
estes? Acabou o comunismo não querem mais brincar? O FMI foi
embora perdeu a graça?
Onde estão todos que não se movimentam para cobrarem
mudanças naquilo que seria o melhor modo de educação cívica
e que nos levaria à maturidade política?
Eu sou povo sim e voto errado, pois não tem como votar certo
neste país, e aguardo algum inteligente, que não é povo, vir
me dizer qual é a forma certa de se votar neste emaranhado
politico
De se votar certo nesta colcha de retalhos que é o nosso
sistema.
Onde está o meu vereador que veio me pedir voto? Ora, virou
deputado estadual, mas eu não queria ele como deputado
estadual. Quem entrou no lugar dele? Eu não votei neste
cara.
Onde está o meu deputado federal? Ora, virou ministro, mas
quem entrou no lugar dele? Se ele queria ser ministro não
deveria ter-se candidatado. Eu queria ele como deputado
federal. Quem será que é o fulano que entrou no lugar dele?
Eu comentei com o tio deste vereador, que me deixou na mão,
que se eu tivesse qualquer pretensão politica eu processaria
ele, pois me senti roubado, e atrairia a mídia para mim e
causaria uma boa revolução para chamar a atenção, mas como
já dizia Raul Seixas: "Eu acho tudo isso um saco e não vou
me meter a besta".
Uma que os inteligentes não se lembram, antes de dizer que o
povo é que não sabe votar é que mesmo que todos votem certo,
num mesmo candidato, mesmo assim esta aglutinação de votos
em um só, vai levar mais, não sei quantos, outros eleitos
que ninguém nem nunca ouviu falar, por causa da quantidade
de votos que aquele honesto arregimentou ao seu partido.
Isto quer dizer que se aquele “honesto” for decente mesmo, e
queira realmente o bem do povo, ele não se candidata, pois
sabe que a sua popularidade vai levar mais quatro,
provavelmente não tão honestos como ele, e que terão o mesmo
valor de voto que ele.
E os suplentes que com míseros votos ou nenhum substituem os
titulares? Como é que nós vamos saber se este suplente vai
ou não entrar na jogada?
Como pode haver suplente individual para cada senador? Quem
é que em sã consciência vai pensar em suplente quando vai
votar?
E os jogos que eles fazem para aqueles que não foram eleitos
conseguirem subir à Tribuna?
Quantos não são nomeados para isso e aquilo, só para abrirem
espaço para que mais alguns subam para o palco?
Lembram-se do Enéias? Quinhentos mil votos e levou mais uns
quatro com menos de quinhentos votos. O que você acha que
estes quatro vão poder fazer lá, mesmo que sejam honestos?
Não, a culpa não é do povo.
A culpa é da classe pensante e organizada deste pais que não
assume as suas responsabilidade, de fato, para podermos
virar esta mesa e acabarmos com a festa dos que só querem
saborear o queijo."A joia brilha na mão calosa, suja de
suor e de terra, de modo muito mais puro, mais intenso, do
que nos dedos bem tratados de um ocioso, que passa seu tempo
terreno apenas em contemplações." Abdruschin em Na Luz da
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