MAIOR QUE O AMOR!
Por Carlos Fernando Priess
Era uma mulher especial, a Chiquinha. Sempre sorridente e carinhosa com todos os
seus, com todos que conhecia.
Durante muito tempo, quando eu a visitava, ainda era garoto, acompanhado de
minha mãe ou minha avó, íamos visitá-la ali na Rua Brusque, numa casa, que
parecia uma mansão, com uma grande varanda.
Era uma exímia modista e preenchia seu tempo fazendo costuras para suas amigas,
e com isso, tinha também, a sua renda própria. Infinita em bondade, criatura
fora do comum, perfeita em tudo, até em "aparentar" felicidade com as aventuras
do marido.
Ele, um caixeiro viajante, trabalhador e conhecedor profundo da técnica de
venda, temperado na luta pela vida e foi sempre um bem sucedido vendedor.
Contam que um dos primeiros carros, adquiridos por um homem de origem humilde,
foi o dele, que veio de navio com um outro automóvel, comprado pelo Paulo
Malburg.
O Senhorzinho, era assim que o chamavam, durante muito tempo trabalhou com a
venda de perfumes e carregava em sua pasta palitos, com os quais mostrava ao
cliente o tipo de aroma. E porisso pegou o apelido, que levou por toda a sua
vida: era o PAU CHEIROSO.
Um homem sério e trabalhador, que por ser caixeiro viajante, deveria levar uma
vida invejável, não partilhava do dia-a-dia da Chiquinha, na criação dos filhos,
na lida doméstica, mas nunca deixava faltar o pão, e isso, com certeza, o fazia
sentir-se um homem realizado, responsável, cumpridor dos seus deveres.
Muito simpático amigo de todos, sorridente, levava sorte com as mulheres, e teve
em verdade muitas namoradas, que a Chiquinha sabia, desconfiava, ou flagrava
vestígios na roupa do Senhorzinho. Ela, uma verdadeira santinha, em extinção.
E, na sua infinita bondade, não querendo alimentar esse tipo de problema,
preferia ficar quieta e levar a vida assim mesmo, até porque o Senhorzinho era
um homem presente e responsável com as coisas da casa.
Entre as muitas namoradas que ele teve, uma foi mais marcante. Teve com ela dois
filhos, que a Chiquinha sabia, e não deixava transparecer que tinha
conhecimento.
A dita namorada, com o nascimento do segundo filho, teve muitas complicações de
saúde, e, quando o menino atingia aproximadamente dois anos, veio a falecer,
deixando o Senhorzinho numa situação muito delicada. Afinal ficara com dois
filhos, fora de casa, e tinha com a Chiquinha cinco filhos.
O que fazer? As crianças ficaram com a avó materna, até que algo pudesse ser
feito.
Num determinado dia, ele ficou em casa, não conseguia trabalhar. Ficou rodeando
a Chiquinha, que trabalhava numa máquina de costura.
Chiquinha, conhecendo como conhecia o marido, perguntou:
- Senhorzinho, o que tens para me dizer ou pedir, já que não foste trabalhar e
ficas aí me rodeando, pra lá e pra cá?
- Nada mulher, apenas resolvi ficar em casa, para estar contigo!
E continuava em redor dela, com a cara de quem queria dizer alguma coisa.
Transbordava a olhos vistos, uma ansiedade. Pegava coisas para comer, beliscar e
voltava para perto da Chiquinha.
Para surpresa do Senhorzinho, diz sua mulher:
- Por que você não traz essas crianças para viverem aqui com nossos filhos?
Foi como um choque elétrico. Sentou-se e perguntou:
- Oh, mulher, então tu sabes? Estou sofrendo, Chiquinha e não sei o que fazer
com os dois meninos!
- Pegue seu carro e vá buscar essas crianças. Onde comem cinco, comem sete, vá
correndo e traga os meninos – disse.
E lá foi ele apressadamente na casa da mãe de sua falecida namorada, trazendo o
Manoel e o Ênio, que se juntaram aos demais, e receberam da Chiquinha o mesmo
amor, a mesma dedicação.
Foram todos, exemplos de filhos. E quis o destino, Deus, que o menor, o Ênio, se
transformasse numa espécie de filho preferido, até porque era o mais moço. E
todos os filhos da Chiquinha também trataram por toda a vida, seus meios-irmãos
com todo carinho, e sem qualquer discriminação.
E o Ênio foi sempre de uma dedicação especial para com a sua mãe adotiva, como
que retribuindo o amor que recebia.
A Chiquinha foi realmente uma criatura fora do comum, amada e venerada por todos
os filhos, pois o seu amor foi sempre, muito especial, o que foi sempre
correspondido.
O Senhorzinho continuou um namorador contumaz, mas o tempo passou e ele veio a
falecer.
A Chiquinha faleceu já com mais de 80 anos e tendo sempre o carinho e a
dedicação de seu adotado filho Ênio, e quis Deus, que ela falecesse nos seus
braços.
Só um amor muito grande pode nos mostrar uma lição tão fantástica!
Hoje a sepultura da Chiquinha tem uma chama acesa permanentemente, numa
lamparina improvisada, mas que com um pavio, graças a um óleo especial, se
mantém viva, graças à dedicação desse filho maior, que não nasceu de suas
entranhas, mas que é infinitamente agradecido.
Um exemplo fantástico de vida, que podemos dizer que é muito maior que o amor.