Estou indo para o trabalho. Deus me ajude que eu volte para casa
Por Sander Dantas Cavalcante
Estou indo trabalhar. Como todos os dias úteis, a mesma rotina: higiene básica,
chuveirada, indumentária e café da manhã relâmpago. Os meninos estudam pela
manhã, o que me dá a alegria de vê-los e trocar algumas idéias antes de sairmos
para o dia-a-dia. Minha esposa não trabalha, ou melhor, trabalha mais do que eu,
pois, não há nada mais estressante do que o trabalho do lar e nós maridos não
damos conta disso. Juntos, naquela horinha, desfrutamos ao máximo a presença
conjunta da família. Pena que dure tão pouco. É café relâmpago mesmo, mas,
aproveitamos ao máximo. O caçula, mais falante, sempre sai com alguma. Todos
rimos com suas tiradas.
Mas, hoje, especialmente, sinto algo diferente. Estou apreensivo. Não sei
explicar bem o porquê. Minha vontade é congelar o tempo e ficarmos ali,
sentados, todos juntos, naquela pequena mesa da copa. Tenho medo de que esse
momento não se repita. Na televisão, rádios e jornais o tema violência urbana
está cada vez mais intenso. São brigas no trânsito com conseqüências drásticas,
não sendo incomum a ocorrência de homicídios e isso por motivos fúteis, banais
mesmo, como uma buzinada, uma ultrapassagem mais arrojada ou sinais obscenos e
outras bobagens que não justificam a barbárie que se observa nas ruas. Há também
as notícias de assalto à mão armada, talvez as mais comuns, notícias de assaltos
a bancos, arrastões em vias públicas, ataques a transportes coletivos, roubos de
carro, apedrejamento de moradores de rua, quando não tocam fogo nos pobres
coitados. Também me ocorre notícias sobre a violência nas escolas, praticada
pelos próprios colegas ou por traficantes. Essas últimas notícias me saem logo
da cabeça, ou pelo menos finjo que saíram. Não aceito, nem de longe, a idéia de
algo ruim com os meus pequenos, que já não são tão pequenos, é verdade.
Cada dia que passa, mais se afasta a idéia de que as coisas ruins só acontecem
com os outros. A violência tem se aproximado de mais e, algumas vezes, chegando
até a gente, mesmo. Minha esposa, dia desses, foi assaltada e ainda agredida
pelos bandidos, sem falar que, mais recentemente, foi perseguida por um veículo
que encostou junto ao seu, com o claro propósito de assaltá-la, o que só não
aconteceu porque ela acelerou e estacionou em um mercadinho do bairro, lotado de
pessoas. Na rua em que moro, por exemplo, dois vizinhos tiveram suas casas
roubadas. Sorte, se é que podemos falar assim, é que em uma dessas casas não
havia pessoas no momento do crime e na outra, apesar de estarem no imóvel a
empregada e dois filhos menores dos donos da casa, não houve violência física
contra os mesmos. Poucos dias após o fato eles se mudaram, como se isso
resolvesse o problema. Não resolve. A violência está em toda parte,
infelizmente.
O pior é que não vejo luz no fim do túnel. Pelo contrário, só vejo escuridão,
que se amplia cada vez mais, como um gigante buraco negro. A diferença é que os
buracos negros engolem apenas os astros do universo e essa terrível escuridão
engole nosso sossego, nossa paz e nossas esperanças. Pode parecer exagero, mas
não é. Nossas principais instituições oficiais do Estado são os Poderes
Legislativo, Judiciário e Executivo. E o que lemos e ouvimos sobre ambos? O
Legislativo, por exemplo, está totalmente desmoralizado. Escândalo em cima de
escândalo, como mensalão, troca de favores, favorecimento de apadrinhados,
inclusive contratações irregulares para o exercício do serviço público, além da
participação de alguns parlamentares no crime organizado. E o Judiciário, que
deveria ser reserva de moral, também se afoga no mar de lama. Basta lembrar o
emblemático caso do Juiz Lalau e dos casos de venda de sentença envolvendo
outros juízes. Até casos de pedofilia, mais recentemente, foram divulgados,
envolvendo determinado juiz. E o Executivo, então. Esse não fica atrás. Desde os
Chefes Municipais, passando pelos Governadores, até chegar ao Presidente da
República, todos têm sua parcela de culpa no caos em que nos encontramos. Citei
o Presidente da República e não me arrependo. Confesso que até nutro uma certa
simpatia pelo nosso Chefe de Estado, mas ele poderia fazer mais pela Segurança
Pública. Ouço seus discursos e admiro sua preocupação com a classe mais pobre e
algo realmente tem que ser feito nesse sentido, mas não se deve parar por aí.
Pouco ouço o Presidente falar sobre a questão da segurança e implemento de
políticas de ações afirmativas nesse sentido, o que se constitui em grave erro e
erro fatal, pois muitas vidas são ceifadas diariamente, fruto da violência
desenfreada, estimulada pela complacência e impunidade.
Sei que a Polícia faz parte da estrutura do Poder Executivo, mas abro um
parágrafo independente para falar sobre ela. Será que nos sentimos seguros com a
Polícia que temos? Penso que não. Nossa Polícia é desaparelhada e os policiais
despreparados, técnica e psicologicamente. Basta remetermos a casos recentes,
onde policiais abriram fogo contra inocentes, pensando tratarem-se de bandidos,
sem nenhum motivo relevante que justificasse o equívoco. E essa não é a pior
parte. Observem que não raro há policiais envolvidos em grupos criminosos, como
esquadrões de extermínio, tráfico de drogas, assalto a banco, extorsão,
corrupção e outros crimes. É duro, mas é verdade. Não dá para sentir segurança
com essa Polícia que está aí.
Esclareço que não tenho, aqui, a intenção de generalizar a participação das
pessoas que integram a estrutura do Estado na criminalidade. Sei que há os bons
políticos, bons juízes e bons policiais. Talvez esses acendam a vela que nos
guie até o final do túnel e nos restabeleça a esperança perdida ou roubada;
afinal, como já diziam nossos avós: a esperança é a última que morre. E tomara
que nunca morra.
Ouço meu nome. É minha mulher, perguntando se estou pensando na morte da
bezerra. Esqueci o café. Não tem importância. Sento à mesa de manhã mais pelo
momento em família que pelo café. Pena que já acabou. Tchau pai, diz o mais
velho. Até mais, coroa, brinca o caçula. Até mais, filha, digo eu para a patroa.
E, só para mim, bem baixinho: Estou indo para o trabalho. Deus me ajude que eu
volte para casa.