A vírgula
Por A. Zarfeg
A vírgula não foi feita para atrasar a vida de ninguém. Mas os
imprudentes, ensina a gramática, devem tomar muito cuidado, pois estão propensos
a levar um belo tombo. Quanto a nós, que somos inteligentes o bastante para
sacar a importância destas minúsculas pausas, vamo-nos dar muito bem. Até porque
nunca iremos abrir mão de criaturinha tão especial, não é mesmo?
Faz-se necessário, portanto, virgular tanta coisa que anda dispersa por aí. É um
vocativo daqui, é um aposto dacolá. Com um detalhe: tudo devidamente virgulado,
visto que a coma constitui um fenômeno mais gramatical do que vocal. E, depois,
a regra convence: é preciso separar para unir ainda mais. Afinal, bem pausada,
até a vida da gente fica mais agradável, leve e solta.
Até porque uma vírgula pode criar heróis: “Isso só, Neco resolve. Isso só Neco
resolve”. Ou vilões: “Esse, prefeito, é corrupto. Esse prefeito é corrupto”.
Moral da história: quando nós – jornalistas, escritores, poetas, redatores e
aprendizes (profissionais ou amadores) de palavras – empregamos corretamente a
vírgula, valorizamos as pequenas coisas da vida, como uma lista de compras, um
bom dia, dona Maria, e uns meios justificando uns fins.