CASO DE POLÍCIA

Por: Alcindo Garcia

O delegado, em começo de carreira, não tinha o que fazer na pequena cidade. Levava a vida que pediu a Deus. Passava horas fazendo palavras cruzadas. Qualquer coisa inusitada o leva-e-traz o informava. Que polícia científica, que nada! Ele trabalhava em cima da fofoca, coisa de cidade pequena, onde todo mundo comenta qualquer coisa diferente. Furto de carro, por exemplo, nunca acontecera naquelas bandas. Mas não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Uma fofoca anônima chegou ao 190. Um possante corcel 72 amarelo-ovo havia sido roubado e estaria escondido na única funilaria do lugar, a oficina do popular Zé Virabrequim.
Com todo aparato de um filme 007, o delegado parou de riscar as cruzadas e passou a comandar a movimentada ação policial. Moradores do lugar se recolhiam às suas residências, enquanto o comércio nas imediações da oficina encerrava as atividades. Pela primeira vez em 30 anos a Drogaria Santo Lucro desceu as portas antes da hora. O estrondo das portas de aço descendo formava a sonoplastia nos momentos que antecediam a invasão da oficina.
Atrás de um poste, armado com um 38, o jovem delegado encerrava a contagem regressiva para a invasão. A um aceno, pôs em atividade um trator, estrategicamente preparado, que emprestara do DER, que invadiu a oficina num estrondo espetacular, pondo abaixo a porta de aço da funilaria. Aos gritos o cerco policial foi imediato e dois mecânicos se renderam no ato, levantando os braços. Lá estava o possante Corcel 72, amarelo-ovo, sendo polido. "Missão cumprida", proclamou o policial do alto de sua sapiência, já se imaginando a frente dos holofotes da repetidora da Globo para uma entrevista, abordando sua espetacular estratégia de combate ao crime.
Foi nesse instante que saiu de um quartinho dos fundos, com um prato aluminizado nas mãos, interrompendo seu almoço, Zé Virabrequim o dono da oficina, que, sem perder a calma, explicou que o Corcel 72, amarelo-ovo, estava em conserto e era do padre Agenor da paróquia da cidade vizinha. Ainda mantendo a mesma calma mineira, Zé Virabrequim indagou, com todo respeito, quem iria pagar o conserto da porta da oficina.