As quimeras da auto-ajuda
Por: Nagib Anderáos Neto
O ser humano costuma ser muito rigoroso quando julga os semelhantes e muito
complacente quando deve julgar-se. Culpa os demais por seus infortúnios. Os
outros são sempre os responsáveis por tudo: familiares, amigos, o governo, o
sócio, o patrão, o empregado. Dificilmente reclama de si mesmo e se coloca como
alvo das próprias críticas. Assim, é muito difícil encontrar a força necessária
para ajudar-se. A força existe, a possibilidade está latente; para despertá-la,
será necessário mudar a conduta no dia-a-dia. A tarefa exige sinceridade,
humildade, desprendimento, certa dose de coragem e perseverança.
Há pessoas que não querem mudar sua maneira de ser, querem continuar seguindo
como são, estão satisfeitas. Há as que querem mudar, transformar-se, melhorar. E
se é para mudar para melhor, então é melhor mudar. Uns querem deixar de ser
impacientes, irritadiços, intolerantes; outros, conviver melhor com parentes e
amigos, encarar com sucesso os assuntos sociais e profissionais, deixar de
experimentar a tristeza e a depressão, abandonar a timidez que impede a
exposição clara do pensamento e ser úteis a si mesmos e aos semelhantes,
encontrando um sentido maior para a vida.
Há sempre uma melhor maneira de executar as tarefas diárias. A idéia de fazer
melhor é uma forma de sair da rotina. Fazer tudo sempre do mesmo jeito, sem
nenhuma variação, faz fracassar a capacidade de iniciativa submergindo a pessoa
no marasmo do tédio e na desconfortável sensação de inutilidade. Fugir da rotina
é uma forma de renovação e de aproveitamento do tempo, pois ganhar tempo é
ganhar vida criando novas atividades, novos pensamentos, aperfeiçoando o que se
vem fazendo. Ao procurar fazer melhor, aprende-se a gostar do que se faz, que é
uma das maneiras de viver bem e ser feliz.
Os manuais de auto-ajuda amplamente comercializados na atualidade, apesar de sua
ineficácia, demonstram que existe nas pessoas uma necessidade reprimida nesse
sentido; já se compreende que nenhum mago ou guru poderá ajudá-las, senão elas
próprias; que a auto-ajuda é possível quando se decide caminhar com as próprias
pernas, sem nenhuma muleta, libertas dos preconceitos seculares que têm impedido
o homem de conhecer-se e construir um destino melhor.
Todo o ser humano, independente de seu avanço evolutivo, tem a possibilidade de
melhorar, de superar o estágio em que se encontre. Mas será necessário
conhecer-se e ir transformando a maneira de ser, pensar e sentir.
Ajudar-se é possível para os que têm a coragem de se reconhecer tal como são,
sem nenhuma ilusão. A partir daí, abre-se um vastíssimo campo de experiência
pessoal no qual podem transformar a vida pelo autoconhecimento e aperfeiçoamento
das qualidades pessoais.
Quem quiser chegar a ser o que não é deverá principiar por deixar de ser o que
é, afirmou o pensador González Pecotche. Cada ser humano carrega dentro de si o
segredo do êxito em todas as ordens da atividade individual; a dificuldade
consiste em vislumbrá-lo e acioná-lo. E tudo se inicia com a humildade e a
sinceridade no juízo que se faça sobre si aliadas à postura inteligente do
aprendiz diante de tudo que lhe possa ser transmitido como ensinamento para o
seu aperfeiçoamento individual.
Nagib Anderáos Neto - www.nagibanderaos.com.br