No Limiar da Inovação
Por Tom Coelho*
“Você pode e deve ser um líder em inovação, porque se não
for, alguém certamente o será.”
(Joel Barker)
O mundo corporativo é um grande funil. Milhões de
companhias em busca do sucesso disputando espaço no coração,
na mente e no bolso dos consumidores. Em meio a produtos e
serviços similares, empresas claudicantes e clientes
infiéis, sobrevivem e se destacam aquelas capazes de se
reinventar e construir seu próprio futuro. Estamos falando
de empresas inovadoras.
Uma inovação é o resultado da associação de dois ou mais
fatores que podem ou não guardar aderência entre si, mas que
geram um terceiro fator identificado como novo. O renomado
futurólogo Joel Barker, em seu mais recente vídeo intitulado
“No Limiar da Inovação”, distribuído com exclusividade no
Brasil pela Siamar, vai além.
Barker apresenta o conceito de limiar da inovação, um lugar
onde algo e algo diferente se encontram. Podemos reduzir
isso em outra palavra: convergência. A combinação de ideias,
de produtos, de serviços, de estratégias. Um movimento
interdisciplinar, reunindo conhecimentos variados;
multidisciplinar, agrupando diferentes disciplinas; e
transdisciplinar, congregando teoria e prática. Vejamos
alguns exemplos.
1. Sacola para presente. Mais de 100 anos após a
invenção das sacolas de papel e 60 anos da criação dos
papéis de embrulho decorados, estes dois produtos
relativamente simples se uniram para gerar as sacolas para
presente. Uma solução inteligente e diferenciada de
embalagem demonstrando que a inovação está ao nosso redor.
2. Hotelaria hospitalar. Como amenizar o desconforto de um
paciente internado, privado de suas atividades cotidianas,
da companhia de seus familiares e da liberdade de sentir a
brisa ou o calor do sol? As redes de hotéis de luxo têm
ensinado aos administradores hospitalares que a estadia deve
ser agradável; a alimentação, saborosa; e o atendimento,
impecável.
3. Velcro. A invenção do engenheiro suiço George de Mestral
surgiu de sua observação dos carrapichos, nome popular das
sementes de arctium, que grudavam em sua roupa e nos pelos
de seu cão em suas caminhadas pelos Alpes. Analisando ao
microscópio, Mestral notou que a estrutura dos filamentos
formava pequenos ganchos nas extremidades que se prendiam às
argolas formadas pelos fios do tecido das roupas. Assim
nasceu o velcro, do francês velours (veludo) e crochet
(gancho), um produto composto de dois materiais sintéticos
que reproduzem o mecanismo de junção de um gancho a uma
argola.
A inovação no limiar desta invenção veio da Alemanha,
onde engenheiros da Universidade de Munique desenvolveram um
velcro de aço com capacidade para suportar até 35 toneladas
por metro quadrado em ambientes com temperaturas de até
800ºC.
4. Transporte aéreo de passageiros. Este é um serviço que
poderia ser qualificado como venda de “economia de tempo”.
De fato, as pessoas usam aviões porque pretendem chegar mais
rapidamente ao seu destino. Contudo, a sistemática atual
exige que um passageiro esteja no aeroporto com cerca de uma
hora de antecedência, enfrentando filas terríveis para fazer
o check-in e despachar a bagagem. E, no desembarque, perca
novamente muito tempo para restituir seus pertences.
Embora todas as companhias aéreas, sem exceção, não tenham
esta perspectiva –e, exatamente por isso, estejam perdendo
mercado para os trens de alta velocidade– alguém inovou no
limiar inspirando-se possivelmente nos bancos para permitir
a realização do check-in via terminais de autoatendimento ou
on line, pela internet.
5. Outdoor. A peça de mídia exterior é convencionalmente
formada por colagem de folhas impressas sobre placas de
madeira ou metal. Em 2003, a agência Saatchi & Saatchi
inovou no limiar com um anúncio para a Audi, exposto na
Dinamarca.
O outdoor aparentava ser, em princípio, uma placa única de
metal, lisa e sem qualquer imagem ou inscrição. Todavia, com
o passar dos dias, o clima úmido foi enferrujando a
superfície, tornando visível a silhueta do veículo, a
logomarca da empresa e a frase “All Aluminium Audi A2”. Ou
seja, o aço, por oxidar de forma muito mais agressiva que o
alumínio, demonstrava o diferencial do novo veículo.
Só para registrar, o trabalho recebeu dois prêmios: Leão de
Ouro, no Festival de Cannes, e o Lápis de Ouro, no One Show.
6. Delivery. O serviço de entrega em domicílio revolucionou
boa parte do varejo, integrando o DNA de operações como
pizzarias e drogarias. A inovação no limiar estendeu o mesmo
princípio aos supermercados, trazendo conforto e praticidade
a um grupo especial de consumidores.
7. Montanha robótica. A empresa alemã Kuka Robotics fabrica
robôs como o Titan 1000, capaz de levantar uma tonelada e
mover-se com precisão para qualquer direção num raio de nove
metros e a uma altura de até cinco metros. Este mesmo robô
foi adaptado para parques de diversão em Londres e no Canadá
criando uma espécie de montanha russa compacta
proporcionando aos usuários uma experiência diferenciada e
aos investidores um ótimo retorno sobre o investimento.
8. Car sharing. Imagine ter acesso a veículos diversos,
espalhados por vários pontos da cidade, pagando uma diária
ou valor fixo por hora, com combustível, seguro e manutenção
incluídos. Assim funciona o sistema de compartilhamento de
veículos criado na Suíça em 1988 e já disponível em mais de
mil cidades no mundo. A inovação no limiar deriva de sistema
similar aplicado a casas de veraneio, barcos e até mesmo
bolsas de grife.
9. Eleições. A vitória de Barack Obama deve muito à internet
e às redes sociais. Da arrecadação de recursos à convocação
de voluntários, passando pela divulgação da campanha e
formação da opinião pública. Uma inovação no limiar no jeito
de fazer política, integrando o mundo online ao offline.
10. Celulares e internet. Com os celulares, temos a
convergência aplicada ao limite. Eles batem foto, gravam
vídeos, enviam mensagens de texto, permitem ouvir rádio,
músicas, acessar a internet, registrar compromissos, jogar
e... até falar!
Já a internet marca o tipo de inovação que podemos
qualificar como superlimiar. Da máquina de escrever aos
processadores de texto, da fotografia ao Photoshop, das
pranchetas ao AutoCAD. E as evoluções dentro do próprio
meio: do site para os blogs, do ICQ para o MSN, do e-mail
para o Twitter.
O mundo corporativo passa por crises constantes.
Nestes momentos, é comum políticas de caça às bruxas e
cortes nos orçamentos suspenderem programas voltados à
inovação, desperdiçando grande oportunidade de se
estabelecer diferenciais competitivos duradouros.
O século passado foi dominado pelos EUA. Mais ainda, ficou
marcado por dividir o mundo entre nações ricas e pobres.
Pode-se inferir que este será o século da Europa, com o
fortalecimento do euro. Ou talvez da China, com suas taxas
galopantes de crescimento econômico. Eu acredito que este
período marcará uma nova divisão, desta vez entre as nações
que sabem e as que não sabem. E a vanguarda estará nas mãos
das pessoas, empresas e nações capazes de inovar no limiar.
* Tom Coelho é educador, conferencista e
escritor com artigos publicados em 15 países. É autor de
“Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e
profissional”, pela Editora Saraiva, e coautor de outros
quatro livros. Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br.
Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br. |