Liderança e Poder
Por
Tom Coelho*
“O poder, em si, não constitui uma garantia moral: o
poderoso pode ter a espada na mão, mas nem por isso é dono
do bem.”
(Contardo Calligaris)
A liderança é uma competência de caráter relacional, isto
é, pressupõe uma relação entre duas ou mais pessoas
fundamentada no exercício da influência. A regra é despertar
o desejo, o interesse e o entusiasmo no outro a fim de que
adote comportamentos ou cumpra tarefas. Além de relacional,
a liderança também pode ser situacional, ou seja,
determinada pelas circunstâncias.
O poder é o exercício da liderança. Em verdade, inexiste
isoladamente, pois o que encontramos são relações de poder.
Assim, é notório que se questione: como o poder é exercido
por um líder?
Muitos são os estudos acerca dos tipos, bases e fontes de
poder. Mencionamos, por exemplo, LIKERT e LIKERT (1979),
KRAUSZ (1991), SALAZAR (1998) e ROBBINS (2002), mas
ressaltando que todos beberam de alguma forma nos escritos
de FRENCH e RAVEN (1959).
Fazendo uma compilação destes estudos, identificamos as
seguintes formas de poder:1. Poder por coerção.
Baseia-se na exploração do medo. O líder demonstra que
poderá punir o subordinado que não cooperar com suas
decisões ou que adotar uma postura de confronto ou
indolência. As sanções podem ser desde a delegação de
tarefas indesejáveis, passando pela supressão de
privilégios, até a obstrução do desenvolvimento do
profissional dentro da organização. Pode ser exercido por
meio de ameaças verbais ou não verbais, mas devido ao risco
de as atitudes do líder serem qualificadas como assédio
moral, o mais comum é retaliar o empregado, afastando-o de
reuniões e eventos importantes, avaliando seu desempenho
desfavoravelmente ou simplesmente demitindo-o.
2. Poder por recompensa. Baseia-se na exploração de
interesses. A natureza humana é individualista e, quase
sempre, ambiciosa. Ao propor incentivos, prêmios e favores,
o líder eleva o comprometimento da equipe, fazendo-a
trabalhar mesmo sem supervisão. A recompensa pode ser
pecuniária, ou seja, em dinheiro, ou mediante reconhecimento
e felicitações públicas. O risco de se usar este expediente
como principal artifício para exercício do poder é vincular
a motivação das pessoas e sua eficiência a algum tipo de
retorno palpável e de curto prazo, inclusive enfraquecendo a
autoridade do líder.
3. Poder por competência. Baseia-se no respeito. O líder
demonstra possuir conhecimentos e habilidades adequados ao
cargo que ocupa, além de atitudes dignas e assertivas. Os
subordinados reconhecem esta competência e a respeitam
veladamente. Um exemplo fora do mundo corporativo é a
aceitação de uma prescrição médica, porque respeitamos o
título do médico e seguimos seu receituário mesmo sem
conhecer o profissional previamente ou o princípio ativo do
medicamento.
4. Poder por legitimidade. Baseia-se na hierarquia. A
posição organizacional confere ao líder maior poder quanto
mais elevada sua colocação no organograma. É uma autoridade
legal e tradicionalmente aceita, porém não necessariamente
respeitada. Um exemplo típico é o poder que emana do “filho
do dono” que pode ser questionado, embora raramente
contestado, se sua inexperiência for evidenciada.
5. Poder por informação. Baseia-se no conhecimento. O líder,
por deter a posse ou o acesso a dados e informações
privilegiadas, exerce poder sobre pessoas que necessitam
destas informações para realizar seus trabalhos. Note-se que
o mero acesso a informações valiosas é suficiente para
conferir poder a estas pessoas. É o caso das secretárias de
altos executivos.
6. Poder por persuasão. Baseia-se na capacidade de sedução.
O líder usa de argumentos racionais e/ou emocionais para
envolver e convencer seus interlocutores da necessidade ou
conveniência de realizarem certas tarefas, aceitarem
decisões ou acreditarem em determinados projetos. Trabalha
com base em aspectos comportamentais buscando ora inspirar,
ora dissuadir os subordinados, de acordo com os objetivos
pretendidos.
7. Poder por ligação. Baseia-se em relações. O líder
apropria-se de sua rede de relacionamentos para alcançar
favores ou evitar desfavores de pessoas influentes. Em
tempos de desenvolvimento das chamadas redes sociais,
ampliar e usar relações interpessoais constitui vantagem
comparativa significativa.
8. Poder por carisma. Baseia-se na exploração da admiração.
O líder adota um estilo envolvente, enérgico e positivo e
alcança a obediência porque seus liderados simplesmente
gostariam de ser como ele. As pessoas imitam-no, copiam-no,
admiram-no com a finalidade de identificação.
Dentre todas as categorias apresentadas, não devemos
idealizar uma forma de poder específica. Não há certo ou
errado. Há o adequado. Em verdade, o mais indicado é que um
líder saiba como, onde e quando exercer seu poder de acordo
com o perfil dos subordinados, das circunstâncias e de seus
objetivos. Assim, o poder carismático ou por recompensa
podem proporcionar maior adesão e atração por suas ideias,
da mesma maneira que o poder legítimo ou por coerção podem
acarretar resistência por parte dos subordinados.
* Tom Coelho é educador, conferencista e
escritor com artigos publicados em 15 países. É autor de
“Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e
profissional”, pela Editora Saraiva, e coautor de outros
quatro livros. Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br.
Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br. |