| Insensibilidade e descaso até na morte
dos nossos policiais Por
Archimedes Marques*
A árdua missão policial fielmente desempenhada e tão
cobrada pela sociedade brasileira continua sendo
incompreendida por muitos. Os caminhos tortuosos e
espinhosos seguidos pelas policias parecem ser
intransponíveis e intermináveis.
Infelizmente há ainda uma tradição arraigada no âmago do
povo em generalizar que a Polícia é ineficiente e corrupta,
que os nossos policiais são ignorantes, irresponsáveis,
arbitrários e criminosos, por isso muitos até torcem pelo
nosso fracasso.
Para boa parte da população policial é sinônimo de bandido,
de algo imprestável, um reles ser do submundo da sociedade e
pouco se importam com os seus problemas, ou seja, são tais
pessoas insensíveis na vida e até na morte dos nossos
policiais.
Quando morre um policial na maioria dos países desenvolvidos
ocorre um verdadeiro desfile de despedida pelas principais
avenidas da cidade em agradecimento aos seus relevantes
serviços prestados à sociedade, com o seu caixão exposto em
caminhão do Corpo dos Bombeiros, sirenes e batedores dos
carros policiais ligados, seus colegas trajando farda de
gala, com a presença dos chefes de Polícia, Prefeito,
Governador e demais autoridades, além da cobertura da
imprensa local. A população pára tudo o que está fazendo e
aplaude homenageando a passagem do féretro do herói morto
com muita comoção.
A viúva e seus filhos nunca são desamparados pelo Estado,
muito pelo contrário, além da pensão justa relativa ao
próprio digno salário do morto, ainda recebem bons seguros
de vida que obrigatoriamente são feitos pelo poder público
e, quando morrem em serviço defendendo o povo, aí é que
esses valores duplicam.
Entretanto, quando morre um policial aqui no nosso País,
mesmo em serviço, defendendo a sociedade dos criminosos não
aparece autoridade alguma, somente a presença dos seus
familiares, amigos ou colegas de profissão e, em ocasiões
especiais os chefes de Polícia. Imprensa só de quando em vez
faz a cobertura do evento fúnebre.
Até o próprio povo se impacienta e se chateia quando os
colegas do policial morto querem lhes prestar uma condigna
última homenagem, como foi um caso recente ocorrido aqui na
nossa região em que um policial civil ao interferir num
assalto fora abatido pelos marginais e, no seu cortejo
fúnebre bem organizado com a Polícia Militar parando o
trânsito até o cemitério, escutei perfeitamente de um
motorista apressado que estava numa rua paralela sem poder
passar por alguns instantes e que falou em alto e bom som:
QUANTA PALHAÇADA. ATÉ NA MORTE ELES ATRAPALHAM O
TRÂNSITO!... Outros motoristas, motociclistas ou transeuntes
apenas assistiam com semblante alheio, raivoso, indiferente
ou insensível o cortejo passar “atrapalhando o trânsito” e
atrapalhando os seus preciosos tempos...
Nossos policiais e seus familiares não são apenas
abandonados, desprezados e renegados por grande parte da
sociedade, são de igual modo, tratados em descaso pelo Poder
público. Em vida são humilhados e desvalorizados
profissionalmente com salários não condizentes com a
importância do cargo. Na morte, além dos desprezos citados,
os herdeiros que possuem direitos aos seus baixos salários
transformados em pensões são até diminuídos com a perda de
certas gratificações, fato que também ocorre quando os
policiais são feridos em batalha contra o crime e ficam
inválidos para o resto das suas vidas. De pronto perdem logo
o adicional noturno e a gratificação de periculosidade,
quando o certo, por uma questão de gratidão e justiça era
incorporar tais gratificações nas suas pensões.
O policial vê mais sofrimento, sangue, problemas e alvoradas
do que qualquer outra pessoa. Trabalha independente das
condições de tempo ou de lugar, mas a sua maneira de ver a
vida em proteção da sociedade continua a mesma apesar dos
percalços na sua caminhada. Na maioria das vezes é
entristecido por conta das desilusões encontradas, mas no
fundo é um forte, sempre esperando por um mundo melhor.
A sociedade brasileira precisa confiar mais na sua Polícia.
Tem que ver e sentir a Polícia à luz do valor da amizade,
pois os nossos policiais lutam o morrem por ela em busca paz
social, enquanto que, por sua vez, o poder público deve ver
a Polícia como valorosa instituição pagando salários dignos
aos seus membros, como já ocorre em raros Estados da Nação,
assim valorizando e respeitando-os na vida e na morte.
*Archimedes Marques (delegado de Policia no
Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de
Segurança Pública pela UFS) - archimedes-marques@bol.com.br
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