| Educação sem Futuro
Por Tom Coelho*
“Tudo o que não sei aprendi na escola.”
(Ennio Flaiano)
Dezessete anos depois de realizar meu primeiro exame
vestibular, tornei a vivenciar esta experiência ao prestar o
concurso promovido pela Fuvest para seleção dos postulantes
às vagas oferecidas pela Universidade de São Paulo.
Domingo ensolarado, dia de final de campeonato brasileiro de
futebol, observo no local do exame uma legião de candidatos,
jovens em sua maioria, que estampam em seus semblantes um ar
de apreensão, tensão e incômodo, como se estivessem diante
de uma decisão que impactará todo seu futuro.
Cinco horas de prova e cem questões de múltipla escolha para
dizer-lhes se estarão aptos a transpor mais um ritual de
passagem, chancelando o passaporte para a vida adulta,
marcando o fim da adolescência. A aprovação significará a
certeza de um horizonte na vida profissional, a conquista de
um novo padrão de liberdade e de um novo status de inclusão
social.
Após algumas instruções gerais e a preocupação inequívoca do
fiscal de prova com o risco de algum candidato aventurar-se
a colar durante a realização dos testes, o caderno de
questões é entregue. Folheio-o e uma profunda sensação de
decepção toma conta de meus pensamentos.
Nosso sistema educacional está falido. Inadequado,
ultrapassado, anacrônico. Continuamos formando um exército
de estudantes doutrinados a grafar uma letra “X” em uma
alternativa dentre cinco possíveis. Estamos desperdiçando a
oportunidade de ensiná-los a pensar, a raciocinar, a criar.
O exame vestibular considerado o mais bem preparado do
Brasil sinaliza esta realidade com perfeição. As questões de
física e química remetem todas ao uso de fórmulas e equações
que precisam ser decoradas pelo estudante para serem
utilizadas na solução de problemas absolutamente
desconectados de nosso cotidiano. O sujeito aprende a
mensurar a velocidade de arrasto de um peso ancorado em uma
polia bem como a fazer o cálculo estequiométrico de uma
reação, mas não sabe trocar o chuveiro de sua casa,
compreender como o consumo de seus equipamentos
eletroeletrônicos afeta sua conta de energia elétrica e o
porquê da adição de álcool à gasolina reduzir a potência de
seu carro.
Mais algumas regras memorizadas e se está habilitado a
estimar a altura “h” de um triângulo escaleno inserido em um
poliedro ou a probabilidade de se extrair uma sequência de
bolas coloridas mediante determinada combinação
preestabelecida, mas não se dispõe de instrumental
suficiente para calcular os juros embutidos nas prestações
de um produto vendido “em oferta” por uma loja de
departamentos.
Aprende-se a vital diferença entre angiospermas e
gimnospermas, sem nunca se ter visitado um jardim botânico
ou atravessado a rua até o parque ou praça mais próximos.
Aprende-se sobre como se dá a fotossíntese, mas evita-se
falar em educação ambiental. Gametas e zigotos são
explorados ao longo de todo um ano, mas educação sexual
deixa de ser discutida.
Ignoram-se a crise política no país e os conflitos
étnico-religiosos no mundo, para se falar sobre aspectos do
feudalismo. Questiona-se sobre as características físicas ou
a personalidade do protagonista de um romance, mas não se
promove o prazer pela literatura através da leitura
despretensiosa.
Vestibulares existem para alimentar uma rentável indústria
formada por cursinhos preparatórios e mesmo para justificar
as altas mensalidades cobradas por muitas instituições de
ensino médio que se notabilizam pelo elevado índice de
aprovação de seus rebentos nestes concursos.
A verdade lastimável, preocupante e penosa é que nossos
jovens continuarão pagando elevados juros no cheque
especial, cartões de crédito e compras parceladas;
permanecerão engordando os indicadores de gravidez precoce e
doenças sexualmente transmissíveis; seguirão destruindo o
meio ambiente tomado por empréstimo dos filhos que ainda vão
ter; persistirão elegendo maus governantes.
Educação é o meio de se construir uma nação mais equânime
num futuro próximo. Sinto que a argamassa não está sendo
elaborada com boa qualidade e que nossos alicerces estão
cada vez mais frágeis...
* Tom Coelho é educador, conferencista e
escritor com artigos publicados por mais de 400 veículos da
mídia em 15 países. É autor de “Sete Vidas – Lições para
construir seu equilíbrio pessoal e profissional”, pela
Editora Saraiva, e coautor de outros quatro livros. Contatos
através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite:
www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br. |