| A Usina de Belo Monte e o modelo de
desenvolvimento
Por Bruno Lima Rocha*
Outra vez mais, a história do Brasil se repete,
reforçando os elos entre os donos do poder, deixando em
segundo plano os legítimos interesses na defesa de formas de
vida tradicionais e do patrimônio da nação. No artigo
demonstro uma zona de confluência entre os governos eleitos
da democracia e os mandatários do regime anterior. Ao final
da tarde de terça-feira, 20 de abril, o desembargador Jirair
Aram Mereguian, presidente do Tribunal Regional Federal da
1ª Região, cassava a terceira liminar contra o leilão que
licitava a execução das obras da Usina de Belo Monte, no Rio
Xingu. Dois consórcios disputavam o remate, ambos formados
por um conjunto de empresas privadas e com grande
participação de estatais do setor. No consórcio vencedor,
chamado de Norte Energia, consta a Companhia Hidrelétrica do
Rio São Francisco (CHESF), com 49,98% da composição. Já no
derrotado, denominado de Consórcio Belo Monte Energia, estão
Furnas e Eletrosul, com cada uma aportando 24,5% de
participação. Nota-se o Estado brasileiro, através de seu
governo central, operando de forma salomônica, investindo
recursos e expertise. Ainda assim, “curiosamente”, o Grupo
Bertin é tido como líder dos vencedores e a Andrade
Gutierrez aparece como liderando os derrotados. Resultado.
Pode vir outra barragem, financiada com dinheiro público e
trazendo mais desastres ambientais, migrações em massa e
doenças endêmicas.
Acredito que o país nunca chegou a discutir a fundo o uso
dos recursos naturais não-renováveis e em especial os
hídricos. Infelizmente, tenho de me referir aos
mega-projetos como sinônimos da eletrificação, incluindo a
atual batalha de milhares de brasileiros contra a
hidrelétrica cruelmente chamada de Belo Monte. Conversando
com um funcionário de carreira do setor, este me
confidenciou que pelos critérios atuais, o Brasil não
poderia construir grandes represas no período
desenvolvimentista, antes e durante a ditadura militar
(1964-1985). Se naquela época fossem levados em conta os
direitos das populações ribeirinhas, dos micro e pequenos
proprietários atingidos por barragens, dos povos originais
(indígenas), isto sem falar na correspondente legislação
ambiental que exige um rigoroso relatório de impacto das
obras, os donos do poder teriam duas escolhas.
Uma escolha, fora de cogitação para o regime da caserna,
seria a não urbanização precoce e a não industrialização
tardia. A outra implicaria, antes que nada, uma definição
política dos conceitos fundamentais para um modelo de
desenvolvimento sustentável. A conseqüência disso seria um
amplo investimento na pesquisa de energias renováveis e a
prioridade de alguns fatores como: a durabilidade dos cursos
de água, fontes e mananciais; a aplicação racional da
irrigação; fortalecer a agricultura voltada para a produção
de alimentos e regionalizada; a preservação das formas de
vida tradicionais (como ribeirinhos, extrativistas,
indígenas, posseiros e quilombolas); a compreensão dos
recursos naturais e da biodiversidade como patrimônio
nacional e por tanto como elemento permanente de defesa
soberana.
Obviamente que nada disso ocorreu e população tradicional
alguma foi ou é levada em conta quando se trata de
mega-empreendimentos, todos eles devidamente subsidiados com
dinheiro fruto dos impostos sob controle do governo central.
Assim o foi durante a ditadura militar e segue sendo no ano
em que vamos às urnas para decidir o recâmbio do presidente.
A sina da Transamazônica continua e, infelizmente, não se
trata de nenhuma novidade.
*Nascido em 14 de julho de 1972, este
carioca de origem e gaúcho por adoção, iniciou sua vida
política ainda secundarista, em 1988. É formado em
jornalismo pela UFRJ, mestre e doutor em ciência política
pela UFRGS. Concentra seu trabalho nas áreas de movimentos
populares, organizações políticas, análise estratégica,
estudos dos órgãos de inteligência e economia política da
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