| A trajetória e o horror do crack
Por Archimedes Marques*
Os fatos criminosos, as conseqüências horripilantes na
área social e familiar e o sortilégio causado ao usuário do
crack, comprovam que essa droga, sem sombras de dúvidas, é
mais perigosa do que todas as outras juntas.
De poder avassalador e sobrenatural, o crack sempre vicia o
usuário quando do seu primeiro experimento e o que vem
depois é a tragédia certa. Crack e desgraça são
indissociáveis e quase palavras sinônimas. O crack é a
verdadeira degradação humana.
Há alguns anos atrás, quando o crack foi introduzido no
Brasil, em especial em São Paulo, seu uso estava
praticamente restrito a classe paupérrima da nossa sociedade
devido ao seu baixo custo de venda, começando assim a sua
trajetória com os moradores de rua que eram viciados em
álcool, maconha ou em cheirar cola e que assim viam naquela
nova e poderosa droga mais barata e acessível, a pretensa
solução para resolver ou para esquecer dos seus problemas.
Na época as autoridades constituídas viviam as ilusões de
que esse subproduto da cocaína não sairia do consumo dos
mendigos, dos pobres, dos desafortunados e dos desgraçados,
por isso pouco se importavam com a problemática, contudo, o
seu consumo rompeu esse quadrilátero, conquistou as demais
classes sociais, expandindo-se rapidamente, virando uma
epidemia nacional e aí, diante do clamor público, o Estado
passou a correr atrás do prejuízo.
A dimensão da tragédia é difundida nos diversos Estados da
Nação através de reportagens jornalísticas que comprovam o
retrato devastador em todos os lugares possíveis e
imagináveis aonde chegou o filho mortal da cocaína. O crack
invadiu grandes e pequenas cidades, periferias e lugares de
baixa a alta classe social, municípios, povoados, zona rural
e já chegou até às aldeias indígenas.
O fracasso da política antidrogas do governo federal é
estampado nos quatro cantos do Brasil. A cada reportagem
televisiva assistimos atônitos pessoas adultas, jovens,
adolescentes e crianças consumindo o crack, deitados no chão
das praças, das calçadas, debaixo dos viadutos, das
marquises, sem se incomodarem com nada ou mesmo correndo em
desespero, vivendo aquele mundo imaginário, sem perspectiva
de vida alguma. Meninos e meninas na flor da idade se
prostituem até por 1 real e praticam qualquer ato ou tipo de
crime possível em busca do crack. Famílias inteiras se
desesperam vendo os seus entes queridos buscando o fundo do
poço pelo crack.
O crack trás a morte em vida do seu usuário, arruína a vida
dos seus familiares e vai deixando rastros de lágrimas,
sangue e crimes de toda espécie na sua trajetória maligna.
Assistimos recentemente com imensa tristeza e pesar uma
reportagem mostrada na TV Record em que crianças recém
nascidas de mães viciadas em crack, são também barbaramente
atingidas pelos efeitos nefastos da droga. Nascem como se
viciadas fossem, com crises de abstinências, com compulsão à
droga, tremores, calafrios e com problemas físicos diversos,
principalmente com lesões no cérebro que provavelmente os
levarão às demências ou a outros tipos de problemas
inerentes, ou seja, uma nova geração de vítimas do crack sem
sequer ter consumido a droga por vontade própria. A maioria
das mães drogadas também perdem o instinto materno e
terminam doando os seus filhos debilitados.
Ao contrário da maioria das drogas, o crack não tem origem
ligada a fins medicinais, muito pelo contrário, ele nasceu
para alterar o estado mental do usuário, para viciá-lo de
maneira sobrenatural e para aniquilar todos os seus órgãos,
levando-o a uma morte breve, mas sofrível para si e para
todos que o cercam.
A cocaína gerou o crack para terminar de arrasar as diversas
gerações que dele buscam sensações diferentes, mas que não
imaginam que na verdade caminham para a desgraça absoluta.
Achando pouco os efeitos insanos da droga mãe, o homem
adicionou ao lixo do processo da sua fabricação, alguns
produtos químicos altamente nocivos e perigosíssimos para a
saúde humana para depois repassá-la ao seu semelhante como
passaporte para a morte.
Absurdamente são adicionados à borra da cocaína para compor
uma fórmula maligna e cruel, a amônia que é usada em
produtos de limpeza, o ácido sulfúrico que é altamente
corrosivo e usado em baterias automotivas, querosene,
gasolina ou outro tipo de solvente que é para dar a
combustão ao produto e, para render aumentando a sua
lucratividade, a cal virgem, ou cal viva que também é tóxica
e usada em construções ou plantações, que ao serem
misturados e manipulados se transformam numa pasta
endurecida de cor branca caramelizada onde se concentra mais
ou menos 40% a 50% de cocaína. Assim nasceu o crack para o
bem do traficante, para o mal da sociedade e para o horror
da humanidade.
A fumaça altamente tóxica do crack é rapidamente absorvida
pela mucosa pulmonar excitando o sistema nervoso, causando
euforia e aumento de energia ao usuário, com isso advém, a
diminuição do sono e do apetite com a conseqüente perda de
peso bastante expressiva. Logo o usuário sente a aceleração
ou diminuição do ritmo cardíaco, dilação da pupila e a
elevação ou diminuição da pressão sanguínea, ou seja, uma
transformação total da sua normalidade física.
Com o tempo o crack causa destruição de neurônios e provoca
ao seu usuário a degeneração dos músculos do seu corpo,
conhecida na medicina como rabdomiólise, o que dá aquela
aparência esquelética ao indivíduo, ou seja, ossos da face
salientes, pernas e braços finos e costelas aparentes.
O usuário do crack pode ter convulsão e como conseqüência
desse fato, pode levá-lo a uma parada respiratória, coma ou
parada cardíaca e enfim, a morte. Além disso, para o
debilitado e esquelético sobrevivente seu declínio físico é
assolador, como infarto, dano cerebral, doença hepática e
pulmonar, hipertensão, acidente vascular cerebral (AVC),
câncer de garganta e traquéia, além da perda dos seus
dentes, pois o ácido sulfúrico que faz parte da composição
química do crack assim trata de furar, corroer e destruir a
sua dentição.
O crack vai destruindo o seu usuário em vida ao ponto dele
perder o contato com o mundo externo, se tornando uma
espécie de zumbi, ou morto-vivo, movido pela compulsão à
droga que é intensa e intermitente. Como os efeitos
alucinógenos têm curta duração, o usuário dela faz uso com
muita freqüência e a sua vida passa a ser somente em função
da droga.
Ainda não existem estatísticas oficiais nos Estados
brasileiros que venham a comprovar o rastro da devassidão e
desgraça causada pelo crack, entretanto já se comentam que
as vítimas fatais mensais superam em dobro as vítimas de
acidentes de trânsito, e em assim sendo, considerando que o
Brasil sempre está nas primeiras colocações em mortes de
transito no contexto mundial, conclui-se, portanto, que
estamos caminhando para o caos absoluto por conta dessa
droga.
Pelas matérias jornalísticas observa-se que o Estado do Rio
Grande do Sul é o mais atingido pela tragédia do crack.
Segundo o Jornal Zero Hora, há cinco usuários de crack para
cada grupo de mil gaúchos, enquanto que é previsto para até
o final do ano de 2012, apesar da grande taxa de
mortalidade, que essa população de zumbis alcance o número
de 300 mil componentes.
Já aqui no nordeste, mais de perto em Salvador, capital da
Bahia, é fato em notícia que 80% das pessoas com idade entre
12 a 25 anos que vem a óbito são egressos do crack e morrem
do crack ou pelo crack.
A dificuldade que o dependente do crack tem ao querer deixar
o seu consumo também é imensa e requer uma força de vontade
fora do comum, diferente do que acontece com os usuários das
outras drogas.
A Universidade Federal de São Paulo atestou uma pesquisa que
acompanhou a trajetória de 131 usuários de crack após 12
anos da saída dos mesmos de um hospital de tratamento,
chegando a seguinte conclusão: Apenas 33% se recuperaram e
venceram a droga, enquanto que 67% foram derrotados, e desse
número, 17% continuavam dependentes, 20% desapareceram, 10%
estavam presos e 20% foram mortos em decorrência do mal da
droga ou assassinados por conta dela.
Conclui-se assim que estamos caminhando para uma espécie de
genocídio, ou seja, morte em massa decorrente de ações de
uma causa só, conforme previu o traficante colombiano Carlos
Lehder Rivas, preso e condenado nos Estados Unidos da
América em 1985, ao afirmar naquela data que o crack seria a
terceira bomba atômica a ser lançada contra a humanidade e
que iriam morrer mais pessoas do que todas as guerras
mundiais juntas.
Correndo contra o tempo o Ministério da Saúde lançou um
Programa emergencial em junho de 2009 que prevê
investimentos na ordem de 118 milhões de reais até o fim de
2010, com proposta de aumentar o número de leitos e de
profissionais dedicados à saúde mental, assim como, de
instalações de novos núcleos de apoio à saúde da família e
centros de atenção psicossocial, entretanto, essa verba,
mostra-se pequena para a extensão da gravidade do problema.
Enquanto isso, milhares de pessoas no Brasil ingressam na
Justiça com ações contra o Estado pleiteando direito à
indenização ou ao tratamento adequado em clínicas
particulares para os seus familiares viciados que estão
vivendo o drama do crack. Nesse sentido o Estado de Sergipe
é exemplo nacional através do Juiz de Direito da Comarca de
São Cristóvão, Manoel Costa Neto, que além de desenvolver um
trabalho de conscientização contra os riscos do uso dessa
droga, vem decidindo em sentenças justas e humanitárias,
através das ações individuais apoiadas pelo Ministério
Público e posteriormente por conta de uma Ação Civil Pública
ingressada pela Defensoria Pública, que todo aquele
dependente químico, principalmente do crack, que reside
dentro da circunscrição daquele município, já pode ter do
Governo a compensação no seu tratamento, ou seja, o Estado
está sendo obrigado a arcar com as despesas dos drogados em
clínicas particulares.
O crime organizado continua investindo pesado do tráfico de
drogas. Muita cumplicidade perversa promove e mantém o crack
no seio da nossa sociedade. Tudo prolifera e floresce com
muito arranjo sinistro. A política de repressão ao tráfico
não esta sendo suficiente para conter o avanço do crack. A
Polícia, apesar de todos os esforços empreendidos, com
prisões e apreensões diariamente de muitos traficantes e de
grandes quantidades de crack, não é forte o bastante para
vencer essa batalha.
Assistimos também desolados, jovens e crianças abandonando
as escolas e recrutados pelo tráfico em troca do crack e
algumas migalhas em dinheiro. O documentário apresentado
pela Rede Globo no programa Fantástico no ano de 2006
denominado “Falcão - meninos de tráfico” comprovou essa
triste realidade brasileira. Durante as gravações, 16 dos 17
meninos “falcões” entrevistados morreram, sendo 14 em apenas
três meses, vítimas da violência na qual estavam inseridos.
Por sua vez, apesar de tudo isso, apesar dessa realidade
brutal e com perspectivas de piorar ainda mais a sua
problemática, sentimos o poder público ainda meio tímido,
sem verdadeira vontade política para debelar tal situação.
O Estado tem a obrigação de investir em massa não só na área
curativa do mal, mas também na repressão e principalmente na
prevenção que é a raiz da problemática, elaborando projetos
que efetivamente influenciem os nossos jovens a nunca
experimentar droga alguma, em especial o crack, ou então
teremos taxas de mortalidade inaceitáveis com o suposto
genocídio em ação, tragédias familiares e sociais no
extremo, além do aumento geométrico da criminalidade,
destarte para os crimes de furto, roubo, homicídio e
latrocínio por conta dessa droga avassaladora.
Aliados a tais medidas governamentais é preciso também da
conscientização popular principalmente na área da educação.
Dentre as formas de prevenir está a questão de se oferecer
atividades escolares extracurriculares que despertem mais
atenção dos estudantes, além de um convívio mais profundo e
dialogado entre alunos com professores, psicólogos e
especialistas, assim como, entre pais e filhos, para enfim,
lutarmos com todas as forças possíveis contra essa epidemia.
Não podemos achar que a polícia e a medicina resolverão os
problemas, que, muitas vezes, se iniciam nos lares, escolas,
festas, shopings center e outros lugares de convivência
social, principalmente dos jovens, mais expostos, por vários
motivos, à atração do mundo das drogas.
*Delegado de Policia. Pós-Graduado em Gestão
Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal
de Sergipe archimedes-marques@bol.com.br |