BOSQUE DOS JEQUITIBÁS
Por Vlad Suato
Não é necessário um grande acontecimento histórico pra minha imaginação tomar
conta da realidade. Coisa de quem escreve, como disse uma professora do curso de
literatura que fiz outro dia.
Na primeira aula ela já trouxe a verdade nua e crua: se vocês estão aqui é
porque são meio malucos... Quando pra qualquer pessoa comum um brinco na orelha
de uma mocinha é apenas um brinco na orelha de uma mocinha, pra vocês o brinco
tem história... Logo vocês se remetem à compra do brinco, ao momento em que ele
fora escolhido entre tantos para enfeitar a linda moçoila e se está a combinar
com os seus sapatos e os longos cabelos lisos.
Ontem tive a prova dessa maluquice apaixonante. Depois de tomar emprestado, já
que pretendo devolver, alguns quilos pra enfeitar minha cintura, resolvi correr
atrás da vida saudável enquanto há tempo, aproveitando uma folga inesperada no
meio da semana.
Fui a um bosque, ou melhor, minizoológico aqui nas redondezas fazer a caminhada
salvadora de coração. O trecho não é muito extenso, levando os passeadores a
realizar várias voltas no mesmo lugar.
Para minha surpresa, acabei tomando conhecimento da rotina de outro mundinho. Na
parte central desse bosque há um pequeno teatro que é usado para apresentação de
peças infantis durante à tarde. As escolinhas com crianças que devem ter idade
entre quatro e seis anos, por meio de seus monitores, levam aquele monte de
pequenas pessoas para tomar gosto pela magia do teatro.
Um grupo sai e outro entra, criando um trânsito intenso de molecotes nas pistas
que caminham os adultos. É evidente que minha imaginação engenhosa não deixou
passar em branco aquele momento hilário.
Uma das coordenadoras de um enorme grupo de “quase-bebês” equivocou-se com a
saída do bosque e estava levando aquela infindável fila minúscula para direção
errada. Alguém percebeu o deslize e logo anunciou aos brados a direção perdida.
Eis que ouço a entonação de uma criança que ainda utiliza-se de fonemas do
berço:
- Parabéns, professora!
Extremamente irônica.
Nesse momento eu cruzava com os olhos da professora que, timidamente,
estendeu-me um sorriso e respondeu ao seu algoz:
- Errei, ué!
Continuei minha caminhada, a passos largos e com sorriso afrouxado. A imaginação
enlouqueceu meus pensamentos sobre o que teria levado aquela criança a ter um
comportamento que apesar de cômico demonstra, no mínimo, certa dificuldade em
lidar com o erro.
Outra resposta não há, a não ser aquela de que ao bebê já foi mostrada a
intolerância.