O trem da vida
 
Por: Alcindo Garcia
 
Recentemente, levei flores e rezei no jazigo de meus pais, em cuja laje de granito está escrito em bronze uma legenda: "A família que reza unida, voltará a se reunir na eternidade". Esta frase eu ouvia muito em casa, dos lábios da minha mãe. Com este pensamento, lembro-me das viagens de trem que fazia em criança na companhia deles a São Paulo. Quem já viajou de trem com certeza vai partilhar deste texto, adaptado às minhas recordações.
Nas viagens de trem, em cada parada nas estações desciam pessoas e embarcavam outras. Por algum tempo ficávamos amigos de pessoas até então desconhecidas, sentadas ao nosso lado, e que, de repente, desciam em alguma estação, para nunca mais se ver. Ficavam as saudades. Naquele tempo, imaginava-se que a vida toda nossos pais estariam conosco até o fim da viagem. Uma pena que no trem da vida a realidade fosse bem diferente das viagens de trem da antiga Sorocabana.
No trem da vida, jamais saberemos em qual parada teremos de descer, muito menos quando descerão nossos pais, nossos melhores amigos, nossos amores, nem mesmo aquele ente querido que está sentado ao nosso lado. É possível que quando tiverem que desembarcar um dia, antes de nós, a saudade venha nos fazer companhia enquanto prosseguimos a viagem sem eles.
Quando nascemos, entramos neste trem e gostaríamos que estivessem sempre em nossa companhia os nossos pais. Em alguma estação deste longo percurso eles descerão um dia, muitas vezes antes de nós, uns na próxima estação, outros mais adiante, irão desembarcar para nos deixar órfãos de seu carinho, amizade e companhia insubstituíveis. E nós, até o dia de desembarcarmos também em alguma estação, viajaremos sozinhos, tendo somente a saudade como companhia.
Neste trem da vida, meu querido pai já desceu em uma estação; mais adiante, minha saudosa mãe desceu em outra. Prosseguimos nossa viagem com saudades, mas com a certeza do reencontro, um dia, na mais bela e florida das estações, a estação das bem-aventuranças. Seo Zequinha e dona Fihica eram apelidos carinhosos de um casal que se chamava José e Maria. Deles nunca vou me esquecer!